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Cesídio
Ambrogi
No mais alto da serra, junto
à estrada,
no ermo sertão, na paz silenciosa,
por crentes mãos, um dia ali plantada,
a Cruz de Ferro se ergue majestosa.
E cansado de longa caminhada,
ante a cruz solitária e misteriosa,
o viandante, ao passar, susta a jornada,
orando aos céus, em prece fervorosa.
E a grande Cruz de Ferro,
negra e muda, insensível aos tempos,
a ação ruda, serena,
sempre a mesma olhando o mar...
E - milagre! - em abril,
contam viajores,
se lhe enroscam nos braços rubras flores,
como se fossem rosas a sangrar...
* * *
Vai todo o soneto de Cesídio
Ambrogi como título de nossa estória. Apossamo-nos dele para
um prefácio luminoso, que nunca nos seria dado produzir.
Foi em Cunha. Pouco distante
daquela cidade, para os lados de Campos Novos, morava o Juca
Mineiro, com sua adorável companheira, preocupado unicamente
com o desenvolvimento do sítio. Enquanto isso, murmurava-se
algo pelos arredores, sobre a graça e a beleza de Mariazinha
que, alheia a tudo o que ocorria, avivava cada vez mais aquela
paixão cabocla no íntimo do moço que a foi buscar na casa
de sua madrinha nos arredores de Alfenas, numa noite de luar.
Mariazinha foi a primeira que
notou a freqüente passagem de Basílio de Campos pelo sítio:
ora, para ver o cafezal; ora para pedir uma caneca de água; e
muitas - quantas! - sem um pretexto plausível, razoável.
Notou, logo depois, o modo penetrante e interessado como era
encarada pelo forasteiro, e pensamentos atordoantes passaram a
povoar-lhe o cérebro até então casto e indiferente.
A má fama de Basílio era
comentada, não só em Cunha como em toda a região do Vale do
Paraíba, onde assinalava com proezas várias a sua passagem.
Isso veio oprimir ainda mais o
coração da caboclinha amante e fiel ao companheiro. Por
vezes abraçou Gregório, ou melhor, Gorinho. Beijava-lhe as
faces acetinadas, vendo naquela criança o fruto de sua
paixão pelo Juca. E quantas vezes este não a surpreendeu
naquelas carícias, notando-lhe a mágoa que a pungia e o
embaraço com que respondia às suas perguntas.
Um dia o mineiro voltou do
campo e procurou Mariazinha por toda a casa. Entrou em
indagações e espalhou emissários. Nada! Dias depois, um
tropeiro vindo de Guaratinguetá informou ao inconsolável
Juca que a vira cavalgando na garupa de tordilho de Basílio.
Pobre Juca! Daqueles tempos
ditosos em que sua alma selvagem extasiava-se ante as
carícias ingênuas da morena ingrata, nada mais lhe restava
senão Gorinho, a lembrança querida a amargurar-lhe o
coração ferido. Com o filho nos braços chorou, e depois
procurou disfarçar sua dor, voltando-se atento e carinhoso à
criança querida e ignorante. Sim, ignorante. Juca fez tudo
para que Gorinho nunca viesse a saber quem fora sua mãe e
como esta procedera.
De fato, aos doze anos, de sua
mãe Gorinho sabia apenas que "tinha morrido", sem
saber como e quando. Não a tinha conhecido, portanto não
sentia sua falta, mas à sua morte atribuía a profunda
tristeza que dominava seu pai.
Este, numa romaria à
Basílica da Aparecida, deparou com a execrável presença de
Basílio, que nele veio esbarrar, em nítida atitude de
provocação. Levou a mão à cintura procurando a lâmina
afiada que ali trazia, mas tremeu. A seu lado estava o filho
querido. Se desferisse o golpe, daí em diante Gorinho seria
apontado ao mesmo tempo, como filho de uma adúltera e de um
assassino. Não! Gorinho havia de ignorar tudo!
Resolveu mudar-se para
Ubatuba. Veio aqui, adquiriu um sítio. Voltou a Cunha, vendeu
o de lá e partiu em companhia do filho. À beira-mar - pensou
- viveria mais despreocupado, sem temer encontrar-se com
Basílio, ou com algum indiscreto que revelasse a Gorinho o
que este devia ignorar por toda a vida.
Ao chegar ao alto da serra, falou:
- Gorinho, vês aquele verde azulado lá em baixo? É o mar.
Lá, às margens do oceano é que vamos morar. Lança um
último olhar para estas regiões de Serra-acima e jura a teu
pai que nunca mais passarás por este caminho. Juras?
- Mas, por que, meu pai?
- Não indagues, filho. Prometes que não mais transporás
esta serra?
- Prometo, pai.
Juca Mineiro deu rédeas ao
animal e começaram a descer silenciosamente. Em dado momento,
cortando as conjeturas de Gorinho, surgiu por entre densas
ramagens, numa curva do caminho, a figura de um homem irado,
que bradou fortemente:
- Juca, você precisa morrer, desgraçado...
E, sem mais demora, desfechou-lhe a pequena distância um.
tiro de garrucha.
Um grito doloroso e agudo partiu do coração de Gorinho,
enquanto o miserável desaparecia no matagal da serra. Juca,
ferido de morte, levou a mão crispada ao peito
ensangüentado, tombando pesadamente do animal que cavalgava.
Gorinho, lívido, alucinado, correu para o pai, não
compreendendo o que se passava.
- Meu filho - falou o
moribundo -, vais perder teu pai... não chores... antes,
porém, vou contar-te... a minha... a nossa história... Com
voz entrecortada narrou toda a infelicidade que pairou sobre
ele com ingratidão de Mariazinha.
E terminou:
- Meu filho... um dia... vingarás teu pai... Deus te
abençoe...
E expirou.
Gorinho plantou ali uma cruz tosca que depois foi substituída
pela "grande Cruz de Ferro, negra e muda". Assinalou
assim o lugar onde um dia viria trazer o testemunho de sua
vindita.
Onze anos são passados.
Gorinho é um belo rapaz de vinte e três anos, delicadamente
moreno, cabelos pretos e ondulados, forte, alto, mas sempre
cingido por uma nuvem de tristeza. A todo instante seu
comportamento denunciava profundíssimo pesar.
Certo dia, numa fresca manhã
de abril, deparando a figura odiada de Basílio num dos
armazéns comerciais da Prainha, a idéia da vingança
prometida ferveu-lhe no peito. Célere, partiu pela estrada do
Mato Dentro, levando nos lábios um sorriso contrafeito. lá
vingar o pai! Vingar!
Pouco antes da Cachoeira
Grande, no pé da serra, sentou-se numa pedra para descansar
um pouco. Basílio, no armazém, pedira pressa, para viajar
ainda naquele dia, portanto não deveria demorar-se.
Gorinho, a qualquer rumor,
escondia-se no denso matagal que beirava a estrada,
espreitando, até que, na curva do caminho, surgiram algumas
bestas trotando em direção a Serra-acima. Logo atrás vinha
Basílio montado num cavalo baio, fumando despreocupadamente,
esquecido talvez do hediondo crime que praticara, onze anos
antes, um pouco mais adiante.
Gorinho estremeceu. Sacou de
um punhal, saltou na estrada e gritou:
- Pára, miserável! Salta do cavalo!
- Que queres? Eu não trago dinheiro. Levo apenas minhas
bestas, respondeu Basílio, deixando com moleza a sela, não
reconhecendo no "ladrão" o filho de suas vítimas.
- Lembras-te de minha mãe?
- Tua mãe? Não sei, não. Quem era tua mãe?
- Tens razão, eu nunca tive mãe... Lembras-te da desgraçada
que roubaste de meu pai?
- Ah! És tu, Gorinho? Mariazinha...
Basílio ainda quis falar mas uma lâmina fria varou-lhe o
coração.
Gorinho, imperturbável, olhou
o céu numa atitude de suplica e, lançando-se sobre o
cadáver, com violência arrancou farrapos da camisa
ensangüentada, montou no cavalo da própria vítima e partiu
em disparada para a serra. Ao transpor a Volta Grande avistou
a "cruz solitária e misteriosa". De um salto deixou
a alimária e, correndo em sua direção, com os olhos rasos
de lágrimas, falou baixinho:
- Pai! Estás vingado! Eis aqui ainda quente o sangue de quem
te fez desgraçado...
E, como no cumprimento de um
dever, depôs nos braços da Cruz de Ferro os farrapos
ensangüentados. Osculou-a e ia retirar-se, quando observou
viandantes que desciam, vencendo a longa caminhada, parecendo
extasiados, na contemplação do maravilhoso cenário que dali
se descortina. O rapaz tremeu. Estavam já a poucos passos.
Rápido, volveu os olhos para a cruz onde pusera os farrapos
ensangüentados.
Milagre! Viam-se agora nos
braços corroídos o enroscado caprichoso de uma planta
silvestre e balouçando à fresca aragem da tarde rubras
corolas de flores perfumadas!
* * *
É por isso que tão bem disse
Cesídio Ambrogi:
É milagre! - em abril, contam
viajores,
se lhe enroscam nos braços rubras flores,
como se fossem rosas a sangrar...
Extraído do
livro "Ubatuba - Lendas & Outras Estórias"
de Washington de Oliveira
("seo" Filhinho)
conforme autorização do autor |